A Espera …

maio 12, 2020

Crônica 82

 

A noite está fresca, mas hoje não há lua. O outono anda meio arisco. Gosto do tempo mais ameno dessa estação. Gosto do bronzeado nas folhas, do sol suave, do vento mais frio… Uma estação  de suavidades. Nada esfuziante, tudo na medida – na medida da espera …

Pensei no momento que vivemos, que também é uma espera. De que o vírus passe, de que a vida volte ao normal. Parece bem adequado que essa preparação que nos levará a um outro mundo, esteja no caminho do inverno.

Estamos aprendendo novos parâmetros, novos costumes; teremos um tempo para gestar esse novo mundo, porque esses novos tempos exigem mudanças internas. Fomos forçados a ficar quietos, isolados. Ou seja, fomos convidados a olhar para dentro de nós mesmos…

Chegamos ao limite, depois da selvageria bélica e tecnológica, depois das disputas irracionais por fronteiras, depois da feérica busca por uma aparência de plástico – perfeita, sem arranhões. Finalmente fomos confrontados com a necessidade de apenas ser …

Ser um pai, um filho, um marido, uma mãe, uma amiga, uma vizinha  –  uma pessoa inteira, com sentimentos e necessidades. Ser alguém com capacidade de se importar, de querer ajudar. Ser alguém com a consciência de que um não pode viver bem se o outro não viver também…

Esse é o inverno que temos pela frente. Gestar o homem com compaixão e amor …

 

 

Waulena d’Oliveira

 

Tempo louco …

maio 5, 2020

 

Crônica 81

 

Suspirava sozinha enquanto pensava no tempo…

O tempo que andava tão louco !  Acordara com um sol esfuziante na janela, mas agora o céu nublara e um ventinho frio brincava na sua cortina …

Suspirava sem ânimo. Mais um dia em casa. Coisas de quarentena. Não estava com paciência para se entregar a um livro. Tudo estava arrumado. Nem os vizinhos ajudavam, todos escondidos e entocados, ruas vazias e silenciosas… Apenas um gato branco languidamente se espreguiçava numa janela próxima  –  e ela pensou se haveria humanos naquele apartamento …

Lembrara das notícias sobre golfinhos e tartarugas na baía, sobre onças e cabritos pelas ruas, sobre flamingos colorindo Veneza… Não era um espanto tudo aquilo ?!

Pra onde fora toda a poluição ?! Até o ozônio se recuperara !…

Não teria sido mais fácil consertar tudo ao invés de tentarem se matar, ao invés de nos lançarem nesse pandemônio ?…

Tempo louco esse … Humanos escondidos em suas cavernas e as cidades desertas habitadas pelos animais… – em seu devaneio quase viu um dinossauro mastigando uma árvore …  rsrs  Não !! Era apenas a turma da Light consertando um transformador … rsrs   Lembrava de um filme antigo mais ou menos assim … Teria sido uma profecia ? Ou apenas consequência ?…

 

Consequência da voracidade humana …

Ora, o mundo é tão grande ! Há espaço para todo mundo ! Por que não co-existir ?… Qual a utilidade de linhas e limites, se todos somos filhos deste planeta ?…  Por que pensar que a tecnologia pode nos fazer mais felizes que um banho de mar, que o cheiro das flores, que uma noite de luar ?…

 

Perdida em seus pensamentos não vira a chuva chegar. Precisava preparar algo para comer. Quem sabe ouvir as notícias sobre quando tudo vai voltar a ser como antes.

É. Já é outono… E mais um dia vai passar.

Vai passar …

 

 

Waulena d’Oliveira

 

O Devorador

abril 28, 2020

Crônica 80

 

 

Ele não era uma criança como as outras. Ficava horas sentado sozinho. As outras crianças corriam a brincar de pique, ou soltar pipa, ou jogar bola de gude. mas nem o chamavam mais. Ele não se importava tinha algo mais importante a fazer …

Aprendera a ler com três anos, quase que sozinho. Seus parentes gostavam de lhe dar livros de presente. Suas coleções cresciam rápido !   E ele … ele ansiava por descobrir cada história, fazer aquelas viagens e conhecer o mundo distante. Aprender sobre a vida, sobre o amor, sobre as guerras, sobre  tudo – porque tudo estava contido nos seus amados livros.

E embora não percebessem, o menino crescia, agigantava-se  –  ainda que seu corpo parecesse o mesmo.

Não demorou muito e começou a ler mais de um livro ao mesmo tempo ! Não podia esperar acabar um para começar outro…

Claro, ele sempre ia bem nos estudos. Tinha amigos – que o consideravam um “crânio” ! Claro, ele se interessou pelas meninas na adolescência , ia às festinhas, mas sempre voltava para seus livros – todos guardados com cuidado.

Quando se apaixonou entendeu verdadeiramente sobre o que falavam todas as histórias que lera – com a sensação de que aquele sentimento era um velho conhecido …

Seus pais sempre acharam que ele seria um advogado, um grande professor, um diplomata. Mas ele nunca verbalizara o que queria fazer de sua vida.

Até que um dia um precisou arrumar seus livros que ocupavam todos os cantos e era preciso mais espaço. E deparou-se com aqueles velhos conhecidos da infância, dos quais ouvira mais falarem, e aqueceu-se de uma ternura tão grande ! Aquele re-encontros foram tão felizes, que de repente uma certeza surgiu em seu coração.

E chegando junto de seus pais falou : “pai, mãe, já sei o que vou ser. Serei escritor !”    Um tanto surpresos eles se entreolharam e indagaram por que não escolhera uma carreira mais centrada, de maior sucesso financeiro.

Com um olhar sereno respondeu apenas :  “ainda existem histórias aguardando para serem devoradas …“

 

Waulena d’Oliveira

 

 

 

Aprendizado

abril 14, 2020

Crônica 79

 

 

Há um tempo de gestar e um tempo de florir.

A similitude está em tudo, na natureza e em nós.

A vida precisa de fôlego, de cuidado, de empenho.  Exceto quando nós interferimos, ela segue seu rumo pacientemente, sem temer o inverno, sem temer a imersão no silêncio, Porque  à toda longa noite escura segue um alvorecer  –  nada é por acaso.

Assim somos nós também. Nada acontece sem motivo. Nada conseguimos sem esforço. E nosso maior empenho é galgar os degraus da plena consciência. A evolução nos exigiu lutas e perdões; guerras e rendições… Já perdemos tanto ! Mas nunca lembramos das lições…

Nossa cegueira nos faz zombar da compaixão, esquecer a solidariedade. Preferimos esquecer que não somos seres anônimos, mas uma rede de consciências que interagem e se interdependem.

E repentinamente fomos lançados , à força, frente a frente com nossas limitações. De repente tornamo-nos nós os engaiolados. Não é engraçado que agora queiramos estar uns com os outros ? Que agora nos lembremos dos mais velhos ?…

Será que essa será a derradeira lição ?  Será realmente apreendida quando o inverno passar ?…

Estaremos prontos para florir quando a primavera chegar ?…

 

 

Waulena d’Oliveira

 

 

 

Seja !!

abril 6, 2020

 

 

Crônica 78

 

 

Vivemos um momento tão extraordinário !

Confuso, incerto. Mas extraordinário.

Nos momentos de silêncio, penso num mundo quieto. Antes tão belicoso, hoje com tantas demonstrações de compaixão. Antes tão dividido por fronteiras e muros, hoje aprendemos que essas divisões estavam apenas no nosso egoísmo … Porque algo praticamente invisível nos igualou ! Sem nações, sem idiomas, sem cor – somos, ou podemos ser, todos vítimas …

As horas tornaram-se mais lentas, o tempo voltou a sobrar. As noites ficaram fáceis de dormir, sem o barulho.

Nas ruas desertas passeiam ovelhas, lagartos e até onças ! Águas tornam-se claras, céu mais azul. O planeta se regenera rapidamente sem nós …

Somos assim tão nocivos ?! Que horrível …

Ahhh … não gostamos dessa beleza toda ! Queremos gritar, sair, devorar espaços, mandar em tudo, ter certezas absolutas. Nos acreditamos donos de tudo  –  mesmo quando algo tão ínfimo nos mostra que não …

Ahhh … ainda tem quem goste dessa beleza toda ! Queremos rezar, pedir perdão e misericórdia pelo planeta, pelo irmão desvalido, pelos que estão isolados nos hospitais, pelos que estão pelas ruas  –  pelos que não deixaram o Amor entrar em seus corações …

 

Vivemos um momento confuso, incerto. Mas extraordinário.

Temos a chance de ser bons uns com os outros, porque estamos todos no mesmo barco. Temos a chance de aprender com o medo e voltarmos atrás, mudarmos o rumo de nossas vidas. Temos a chance de sermos pessoas diferentes, de verdade. Temos a chance de fazermos a diferença no mundo, não para o mal, mas para o Bem maior.

Temos a chance de alterarmos a vibração do planeta, cada um com a sua fé, cada um com suas melhores intenções. Cada pequeno gesto, uma esperança. Cada bom pensamento, um alento. Cada oração, o renascer da compaixão…

Sejamos essa mudança !!

 

 

 

Waulena d’Oliveira

 

O que tens feito de mm ?…

março 24, 2020

 

Da minha janela vejo o mundo. Mas qual ?

Acordei num mundo silencioso, vazio … Há sombras escondidas, temerosas. Eu sei que estão lá, mas não posso alcançar – não devo …

Estou à salvo em meu lar. Estou ?… À salva de quê, de quem ? Onde está o perigo, dentro ou fora ?…

Com toda essa quietude os pensamentos parecem gritar. De repente, não há pressa, não há agenda, não há encontros. Resto aqui eu e minha consciência – e talvez um café…

Posso pensar que sou apenas uma “vítima” das circunstâncias. Será ?…

Porque todas as minhas atitudes espelham a realidade de um mundo viciado, roto em suas relações. Um mundo onde as pessoas esqueceram de olhar umas para as outras, esqueceram de ter tempo para se preocuparem com aqueles que lhe são próximos  –  pais que trabalham sem cessar , sem tempo para uma simples brincadeira de roda, um balanço… Um mundo onde não se conhece aquele que mora na porta ao lado da nossa. Um mundo onde os velhos perderam a importância e o respeito. Onde cada um escolheu ficar preso numa tela de celular … Porque sou aquilo que faço, que penso, que sinto.

E agora enlouquecem porque não podem sair . Agora querem passear de mãos dadas, abraçar os parentes, os amigos. Agora querem…

Será que é simplesmente porque não devem fazê-lo, ou porque a Vida os parou à perguntar “O que tens feito de mim ?…

Um elemento invisível nos parou. Freou a nossa destruição porque a nossa consciência não o conseguiu ! Muitos rios mostram hoje águas claras, o ar ficou mais limpo e deixa ver a paisagem, a cor do céu. Muitos sentam-se a brincar com as crianças pela primeira vez. Muitos se preocupam em postar mensagens de alento, preocupam-se com os que estão sós. Jovens se oferecem para ajudar idosos solitários. Parece que a lição começa a fazer sentido…

 

E enquanto tomo meu café devagar, vislumbro alguém em outra janela, que acena e sorri. Eu retribuo sem saber se ela também pensa como eu…

 

 

Waulena d’Oliveira

 

Super Lua

março 17, 2020

Crônica 75

 

Percebo um frissom à beira mar… Foi um dia quente, ainda é verão… Aproveitar a noite para sentir a brisa é reconfortante. O arrulhar das ondas embala os pensamentos que querem dormir.

Aqui e ali os cochichos deixam rastros, das pessoas que passam ; muitos falam que esperam ver a super lua nascer –  para isso nada melhor que a companhia de uma água de coco e a brisa do mar !…

Numa cidade praiana essas belezas tornam-se costumeiras, quase despercebidas no dia a dia – tudo tão habitual !… Até nos surpreendemos com a reação dos interioranos diante desse marzão pela primeira vez !

Pensando bem, a praia é um local muito democrático. Jovens ou  velhos, sarados ou não, casais ou desapegados. Todos são igualmente convidados a observar o nascer da lua sobre aquele mar que antes tão escuro vira uma esteira de prata…

Realmente a lua é mágica ! Atiça corações, faz brotar profundos suspiros. Basta um pouco de atenção para perceber olhares sorrindo – sonhando …

A lua surge, resplandece o céu, abraça-nos com sua majestade, traz luz à escuridão da noite – como uma esperança a acenar de longe, como um encantamento a prometer o amanhã,como um feitiço a apagar o que já doeu …

Depois da lua nenhum coração resta agitado. Acalma-se a alma. O futuro anseia amanhecer …

 

 

Waulena d’Oliveira

 

Um Toque de mãos

março 17, 2020

Crônica 76

 

Nestes tempos de pandemia, difícil evitar o assunto. Todos estamos de olhos grudados nas telas das TVs, ávidos pelas notícias sobre a evolução da doença. Um medo surdo tenta instalar-se em muitos de nós. Neste país tropical, cheio de sol, de natureza exuberante, mas sem saúde, sem governo, nos vemos exilados em nossas casas  –  de todos o menor dos males !

São muitas as histórias que vemos nas redes sociais. Muitos depoimentos de pessoas em outros países. E se antes ficamos estarrecidos com o que foi necessário fazer naqueles locais, agora vemos o vírus bater às nossas portas.

E como vamos nos comportar ?

Ao  refletir  sobre tantas tragédias que vimos assistindo nos últimos anos – tsunamis, furacões, terremotos, cidades inteiras sob as águas, ou ardendo sob o fogo … –  pergunto-me sobre a seriedade desses tempos, sobre a responsabilidade humana que é posta à prova, sobre a razão espiritual dessa mais nova peste…

Pergunto-me se a soberba e o egoísmo humanos chegaram a tal ponto que somente algo drástico poderia nos por de joelhos, nos fazer parar e encarar nossos atos.

Não creio em castigo divino, mas em causa e efeito. Colhemos agora os resultados de tantos atos impensados, agressões ao planeta, falta de solidariedade com o próximo.

A civilização humana alcançou maravilhas tecnológicas, porém empobreceu seu espírito, esqueceu sua própria humanidade…

De quando em vez uma notícia me enche de orgulho ! Como o vizinho que se ofereceu para fazer compras para aqueles, mais idosos, que tivessem mais dificuldade de fazê-lo. Ou sobre os italianos que sem poderem sair de sua casas, cantam uns para os outros de suas sacadas para animar os que estão sozinhos…

Estender a mão ao outro não precisa do toque, porque devemos fazer isso de verdade, com a alma, com o coração …

Ahhh … ainda resta uma esperança !!

Ahhh… ainda resiste a humanidade no coração dos Homens !

Observo as notícias. Reflito. Alerto para que tenhamos calma e paciência.

Não podemos deixar de fazer o que for necessário.

E sem perder minha própria esperança, oro por dias melhores …

 

Waulena d’Oliveira

Penumbra

fevereiro 17, 2020

Crônica 74

 

 

Já é tarde. Sigo pela rua escura alheia ao movimento dos carros, em estado de suspensão.
A mente numa eterna conversa – alheia ao trânsito, à hora – ainda remoi fatos, tarefas, expectativas.
Mas o olhar vislumbra um bruxuleado de luz, numa parede feia, descascada. Vejo janelas abertas, penumbras.
Posso imaginar a vida lá dentro, paredes sem cor, lençóis velhos, luz amarela, calor…
Alguém afasta uma cortina meio rota e espia o mundo – talvez curioso com os ruídos do outro cômodo, onde a janela aberta deixa à vista dois corpos nus, jovens, alheios, absortos, uma cadência marcada de sons e sensações…
O mundo corre aqui fora mas lá dentro não há tempo. Naquele quarto velho e sem cor só há entrega, gozo e suor . . .
Percebe-se que nada os incomoda, nem a feiura do local. Espanta-me a riqueza daquele momento. Penso comigo na relatividade do tempo, do valor das coisas, de tudo.
E enquanto os carros seguiam lentamente, a vida ia ficando para trás, dentro daquelas paredes sem cor, luz amarela, calor …

 

Waulena d’Oliveira

 

Universos

fevereiro 11, 2020

 

Crônica 73

 

É tão vasto o universo feminino e tão distante do mundo masculino ! . . .

É inatingível para o homem o universo do amor feminino, com todas as suas facetas, nuances, dubiedades . . .  Um universo que se faz com gestos doces e amorosos, com um simples beijo de “bom dia” ,  ou um beijo arrebatado num abraço noturno . . .   Que se cria com sons e cores de momentos, com aromas e com sabor de lembranças . . .

O homem, cartesiano, constrói um mundo de tecnologia, duplica vidas, viaja pelo espaço, conquista mundos, mas não consegue perceber a essência do universo feminino . . . Se perde, fica perplexo, não alcança o sentido de tantos fragmentos.

Mas é tão simples !…

O homem só precisa ganhar. A mulher precisa criar …

Criar a vida, a sorte.  Saciar a fome, curar a dor, abrir sorrisos. Transmutar…

Ter duas, três, jornadas. Enfrentar os desafios de seu próprio corpo. Organizar tudo mesmo quando seus hormônios deixam tudo em desordem.  Sangrar sem morrer.

Simples ?!…

O homem só precisa ganhar. A mulher precisa criar …

 

 

Waulena d’Oliveira