O Natal que não chegou

dezembro 21, 2020

Num ano de tantas agruras, como nunca havia visto, esperava-se que o Natal chegasse trazendo esperanças…

O fim do ano chegou rápido ! Apesar das notícias sobre o vírus nefasto, as pessoas circulavam sem mostrar medo. As compras eram tímidas, porque esse fora um ano de muita dificuldade financeira para muita gente…

Não se via as costumeiras reuniões nos bares, no final do expediente, ou a troca de presentes dos ‘Amigos Ocultos’ . Não se via janelas iluminadas, não se via árvores acesas nas casas. Não deveria haver grandes reuniões este ano  –  a aglomeração de pessoas era um risco !

Que ano !!

Assim correram os dias, numa expectativa diferente dos outros Natais.

Achou melhor colocar alguns enfeites pela casa. Uma tímida árvore armou – apenas para lembrar que era Natal … Conseguiu comprar alguns poucos presentes, apesar da incerteza se poderia entregá-los… Separou as velhas canções e tentava encher o ar com as memórias de todos os Natais. Mas as memórias pareciam cansadas e apagadas  –  o tempo parecia tê-las levado para tão longe !…

O fim do ano chegou rápido !  O fim de um ano vazio de histórias, cheio de preocupações stressantes, de medo, de condolências, de adeus… Mas a vida exige que se vá em frente, quase nos impõe a necessidade de acreditar nos amanhãs. Apesar de tudo …

Este ano não haveria festa. Alguém partiu. Alguém está distante. Não havia motivos para ceia – não haveria ninguém mais à volta da mesa. Apenas, talvez, as velhas melodias…

Este seria o ano em que o Natal não chegou …

No entanto, enquanto olhava a vida lá fora, naquela noite silenciosa, de repente viu o seu reflexo no vidro da janela, enfeitado pelo reflexo das luzinhas piscando no tímido pinheiro – como se fossem suas as luzes, as cores, o brilho …  E percebeu que era !

Entendeu que todas as festas, todas as memórias, todas as pessoas queridas, toda alegria estava dentro de si mesma !  Lembrou que o espírito do Natal sempre estivera no fundo de cada coração capaz de amar. Entendeu que sempre seria Natal…

Waulena d’Oliveira

Mudar …

agosto 25, 2020

Quem nunca sentiu saudades do que já foi ?  Principalmente naqueles momentos em que lugares, cheiros, sons, insidiosamente nos tomam pela mão e nos levam pelo tempo.

Ah !  Que nostalgia …  Mas, por quê ?

Será que o tempo nos muda tanto que deixamos de nos reconhecer no espelho ?

O tempo pode ser impiedoso. Pode transformar crianças em velhos; grandes mares em desertos; uma frondosa árvore em madeira seca. Porém, pode ser também prodigioso, transformar simples uvas em vinhos especiais e pedras brutas em magníficos diamantes !

Qual a diferença ?  A essência !

Só é preciso enxergar com o coração. E ver-se-á que o tempo transforma crianças em vinhos especiais e em magníficos diamantes.

E ver-se-á que somos um desafio : o próprio espelho do tempo  – porque eternos…

Waulena d’Oliveira

Despedidas

agosto 11, 2020

Seguia por caminhos velhos conhecidos, de dias antigos – como se fossem de uma outra vida…

Por anos significavam a distância de casa. Agora eram apenas a distância de um dizer adeus…

Como diz a canção  ‘a vida é trem bala’ e quando menos se espera chega a última estação.

De que vale tudo então ?!  Pelos encontros…

Não só de sorrisos ou apertos de mão; mas contatos de alma, de coração.

Pessoas com quem repartimos etapas de vida e de quem guardamos momentos de alegria, ou dificuldade; de festejo, ou de ajuda.

É disso que a vida é feita. Das oportunidades de conhecer pessoas incríveis, cheias de luz, que nos transformam, nos alentam, nos fazem crescer. Pessoas que aprendemos a amar, a respeitar  e, no mundo cibernético de hoje, pessoas que nem sempre estão perto de nós – parafraseando o título daquele filme ‘nunca te vi, sempre te admirei’ …

Às vezes a parceria surje e se exercita por anos, amadurecendo aos poucos, às vezes surge de repente e se instala como se sempre houvesse estado ali, plena. 

Perder um amigo assim é perder um pedaço. É perder as palavras. Porque alguém assim fala a linguagem do coração.

Sim. O mundo fica um pouco mais cinza, um pouco mais triste.

Mas é preciso honrar aquele que se foi. Seguir em frente. Continuar o trabalho.

Acreditar que foi apenas um ‘até logo’ , pois amigo é para sempre…

                                     In memorian  –  Edgard e Renato

Waulena d’Oliveira

2.020

agosto 4, 2020

Lava, desinfeta, seca … lava, desinfeta, seca… lava, desinfeta, seca…

Neurose nossa de cada dia, nos tempos da quarentena.

Filmes, séries, lives … livros, séries, lives… livros, séries, lives…

Ocupações nossas de cada dia, nos tempos de quarentena.

Mas eu quero sairrrrr !!!!! Fica em casa !

Mas eu quero ar fresco !!!!! Talvez um dia !

Mas eu quero abraçar !!!!! Contamina !

Outono/inverno secos, sem chuvas – secas, incêndios.

Nuvem de gafanhotos : cuidadoooo !

As semanas corriam no início do ano, mas agora se arrastam. Contamos os minutos, as horas, os dias. Aliás, trocamos os dias pelas noites. Está tudo de ponta-cabeça !

A moda… bem, a moda não importa. Faça de conta que você nunca foi a um cabelereiro ou manicure  –  faça em casa, você mesmo !  Qual o problema de ter cabelos longos, ou de várias  cores ? Não tem gente que pinta com um arco-íris ?  Então, porque não pode ser branco/preto/loiro ?… Basta que a cor da sua máscara combine com a roupa !

E não esqueça :  Lava, desinfeta, seca … lava, desinfeta, seca…

Nos anos sessenta todo muito assistia ao “telecatch” . Pensando bem, era sem graça… Ahhh é bem mais interessante o gladio nas redes sociais ! Socos e tapas, ofensas, rompimentos … Nos tornamos o povo do mi-mi-mi. Não importa se é amigo ou família : falou o que eu não gostei ?!…  Ra-ta-ta-ta-ta…

Mas calma ! Essa pandemia veio para que nos tornemos pessoas melhores…

E para darmos uma chance ao mundo de respirar. O mundo, ao menos, lucrou com essa pandemia. Ar mais puro, águas mais limpas, animais livres pelas ruas  –  até arrastão de micos nos prédios ! rsrs

Lava, desinfeta, seca … lava, desinfeta, seca… lava, desinfeta, seca…

Gente, que ano !!!

Já chegou o réveillon ??

Waulena d’Oliveira

Moda

julho 28, 2020

Quarentena tem dessas coisas. Nada para fazer e tudo por fazer. Como pode?

Quando estávamos envolvidos nas nossas rotinas, não tínhamos tempo para nada; era o que reclamávamos… Hoje que não podemos sair, nos dizemos entediados e sem nada para nos ocupar.

Mas … Quarentena tem dessas coisas…

As conversas voltam a todo instante para lugares onde estivemos, ou para eventos dos quais participamos, ou para hábitos que cultivávamos em outros tempos. A quarentena tem uma nota de nostalgia…

Algumas tarefas têm cara de quarentena, como as limpezas de armários, a organização de velhos retratos, roupas antigas a serem doadas  –  tudo junto com a promessa sincera de que nunca mais vamos acumular tanta coisa ! rsrs

Ver fotos antigas é uma distração extra. Revivemos momentos queridos, vemos rostos amados…

Mas já tiveram uma seção dessas fotos ?  Já se depararam com aquelas fotos que não desejariam que ninguém visse ? Penteados estranhos, roupas “infotografáveis” !  rsrs  Calças boca de sino com camisas justas, estampado combinando com listras, ombreiras enormes …  Moda …

Moda tem tempo de validade. E serve para tudo.

Antigamente não havia festinha infantil sem ‘cajuzinho’ ; e hoje ?  Houve época que a moda era ter um cachorro ‘Pequenez’ ; hoje estão extintos ! Depois teve a moda dos Dobbermans, dos quais nem se fala hoje em dia…

Fico pensando como tudo é efêmero na vida humana. As pessoas, os gostos, as sensações…

Tudo é ciclo. Quando acaba, passa. Vamos em frente e esquecemos o que foi um dia.

Mas , ora ! É esse o segredo !!  O vírus é uma moda ! Vai passar !

E ninguém mais vai lembrar do ano fora do tempo , da preguiça, do tédio …

Vai passar…

Waulena d’Oliveira

Amigos

julho 21, 2020

Naquele dia havia algo no ar que ela não sabia dizer o que era. Havia um certo desânimo, uma vontade de nada… Tudo parecia meio sem graça, tudo igual à sempre…

Por que sair da cama, podia muito bem passar o dia deitada – nada a impediria. Nem estava quente, podia se aninhar nas cobertas e deixar-se ficar. De algum lugar vinha um cheiro de café ; hummm… parecia bom… Ahh… faria o seu próprio mais tarde.

O relógio não ligou para a letargia dela e correu, passo após passo. O sol já ia alto quando ela abriu os olhos novamente. Olhando pela janela, não viu muito movimento, poucas pessoas andando com suas máscaras, quase ninguém nas lojas – essa era a sua nova paisagem desde que a quarentena começara. Pensou ser melhor comer alguma coisa.

Mas antes de sair do quarto resolveu pegar seu celular e ver as mensagens. Isso levaria um bom tempo e gastaria um pouco do que estava sobrando. Havia muitas mensagens, chegadas desde cedo. Algumas pulou, algumas respondeu ; gostou de outras ; compartilhou poucas; até que … lá estava ! Uma mensagem dizendo  ‘bom dia’  e desejando o melhor dos mundos…

Fazia tempo que não falava com ele. Fazia tempo que não se viam. Mas isso nunca fizera muita diferença…

Leu a mensagem e se emocionou. E de repente ele a chamava numa ligação. Ela atendeu com um sorriso, reconhecendo aquela voz tão familiar, tão parte de sua vida !

Conversaram por um longo tempo. Contaram um para o outro sobre o que tinham feito, sobre estavam lidando com as loucuras da quarentena e riram – riram muito ! Eles sempre souberam rir juntos. Prometeram-se não ficar mais tanto tempo sem se falarem e que se reuniriam assim que fosse possível.

Ela sentiu-se leve. Satisfeita com a vida e repentinamente faminta ! E lançou-se à geladeira para preparar uma bela e gostosa refeição.

E quando já ia sentar-se à mesa, um sinal de mensagem soou. Ela viu que era dele e abriu. Dizia : “sabia que se eu te fizesse rir, tudo estaria bem…”

Waulena d’Oliveira

Invisíveis

junho 29, 2020

Nem todas as escolhas são perfeitas. Muitas vezes não percebemos o quanto temos. De quando em vez reclamamos. Esse mundo mantém nossa percepção obliterada, seguimos cegos…

Ouvimos sem cessar que há uma pandemia “terrível” ceifando milhares de vidas por todo o mundo. E ficamos com medo. Mas reclamamos de ficar em casa !!! Em casa … Abrigados, alimentados, seguros … Como nos tornamos tão egoístas ?…

Um certo texto que roda as redes sociais, sem autoria, nos lembra do que é viver tragédias reais. Imaginem viver numa cidade destruída por bombas, olhar em volta e só ver escombros e não ter para onde fugir … Imaginem pais se despedindo de um jovem filho que vai para a guerra do outro lado do mundo sem saber se tornarão a vê-lo…  Imaginem um velho soldado que encontra um filho morto num campo de batalha… Imaginem milhões de pessoas sendo mortas em guerras impiedosas, ou por pragas assustadoras como a peste negra, ou a gripe espanhola…

Mas não nos conformamos de ter que ficar em casa…

Casa… Refúgio. Abrigo.

Um certo programa jornalístico nos fala das pessoas invisíveis, como se fosse um tema assombroso. Mas estão logo ali, todos os dias, à nossa volta. Dormem pelas ruas, ou em locais que mais parecem buracos sujos, sem ar, sem nada… Não têm documentos e por isso não existem… Não têm o que comer a não ser que alguma boa alma ou Projeto lhes dê uma ‘quentinha’ ou uma sopa de vez em quando. Não têm onde dormir a não ser um papelão ao relento das noites frias. Não têm nome, não sabem a própria idade, não têm passado , nem futuro…

Mas não nos conformamos de ter que ficar em casa…

Nem todas as escolhas são perfeitas. Muitas vezes não percebemos o quanto temos. Mas havemos de aprender que aquilo que temos não nos torna pessoas melhores, ou especiais, mas, sim, nos dá a obrigação de cuidar daqueles que menos ou nada têm. Nos dá a responsabilidade de lutar pela igualdade de um mundo melhor…

Poeira de estrelas

junho 9, 2020

Crônica 85

 

 

Todo esse tempo eu pensara que era feita de matéria… De repente, alguém atesta que sou feita de energia ! E condensada ! Não só eu, mas tudo !  Como assim ?!…

Para muitos essa constatação é uma abstração difícil de entender.  E me pus a imaginar mesas e cadeiras se transformando em energia – acho que nunca mais sentarei numa cadeira sem desconfiar dela …

Mas, pensando bem, temos a demonstração dessa verdade diante de nós, nas nossas salas e quartos, todos os dias – a televisão !  Ondas , partículas, sons e imagens sendo transmitidas a milhas e milhas … E, imaginem, produzindo emoções …

Simmmm ! Emoções ! Pensamentos, sentimentos …  Por isso dizem que somos o que pensamos … Nossa vontade também é energia. Nossos sorrisos, nossas lágrimas. Por isso meus versos desprendem-se da alma e fogem no vento ! Agora os entendo …

Ora … ocorreu-me então a dúvida de por que ficamos à mercê de tristezas ?  De falsos destinos ? Ora ora … somos energia ! Podemos imprimir em nós a cor e a propriedade que quisermos ! Podemos rejeitar a negatividade e buscar o nosso verdadeiro brilho, pois se somos todos e tudo feitos da mesma energia, temos em nós sóis , estrelas , explosões de galáxias !!

Podemos escolher as energias boas por companhia, bons humores. Claro que haverá dias de tormenta, mesmo que não gostemos, mas fazem parte; precisamos deles para apreciar os dias amenos. Não estamos todos agora aprendendo com a quarentena ?!…

A questão é não ser papel perdido da ventania, sem rumo. Havemos de ser um feixe de energia positiva, com cores alegres em, direcionados ao Bem  – nosso e dos outros… Havemos de fazer jus às partículas de estrelas que nos formam ! Havemos de ter a força do sol que rompe a escuridão do espaço inundando-nos de vida…

Não podemos esquecer : somos energia ! Sejamos os condutores de nossos caminhos, em direção do melhor …

 

 

Waulena d’Oliveira

 

Partidas …

junho 1, 2020

 

Crônica 84

 

 

Muitos falam de castigos, de pragas. Muitos falam de chances, de renovação.  Muitos falam …

Mas o que fazemos ? O que temos feito de nós mesmos nessa hibernação forçada ? Estamos realmente refletindo sobre velhos conceitos, revendo atitudes ? Ou só esperando o retorno de ‘dias melhores’ para sermos os mesmos ?

Preocupa-me o que perdemos nesses tempos… Lugares que talvez nunca visitemos. Pessoas que não veremos mais…

Foram muitas as perdas. A dor do que não se tem mais, de repente, sem avisos, sem preparo, é grande.

Um amigo, um parente, que se vai, leva com ele um pedaço de nós, da nossa história …

Claro, ficam as lembranças, os sentimentos – se verdadeiros.  Mas também é certo que ficamos um pouco mais pobres …

Daí reflito se os que partem não seriam como a fumaça que tece balés sobre a xícara do chá que sorvo. Aquecidos por nossas vivências, transformam-se, elevam-se, voam livres, alçam os céus, voltam ao Universo…

Olhando a lua no céu que escurece, gosto de pensar que estão sorrindo nesse luar. Que não estão mais presos aos nossos queixumes, aos nossos infortúnios, às nossas lições – ao menos por enquanto.

Gosto de pensar que por agora estão no vento, no brilho das estelas, no perfume das flores, em tudo que é belo e que nos toca a alma – assim como, um dia, tocaram nossas vidas …

 

 

Waulena d’Oliveira

A Espera …

maio 12, 2020

Crônica 82

 

A noite está fresca, mas hoje não há lua. O outono anda meio arisco. Gosto do tempo mais ameno dessa estação. Gosto do bronzeado nas folhas, do sol suave, do vento mais frio… Uma estação  de suavidades. Nada esfuziante, tudo na medida – na medida da espera …

Pensei no momento que vivemos, que também é uma espera. De que o vírus passe, de que a vida volte ao normal. Parece bem adequado que essa preparação que nos levará a um outro mundo, esteja no caminho do inverno.

Estamos aprendendo novos parâmetros, novos costumes; teremos um tempo para gestar esse novo mundo, porque esses novos tempos exigem mudanças internas. Fomos forçados a ficar quietos, isolados. Ou seja, fomos convidados a olhar para dentro de nós mesmos…

Chegamos ao limite, depois da selvageria bélica e tecnológica, depois das disputas irracionais por fronteiras, depois da feérica busca por uma aparência de plástico – perfeita, sem arranhões. Finalmente fomos confrontados com a necessidade de apenas ser …

Ser um pai, um filho, um marido, uma mãe, uma amiga, uma vizinha  –  uma pessoa inteira, com sentimentos e necessidades. Ser alguém com capacidade de se importar, de querer ajudar. Ser alguém com a consciência de que um não pode viver bem se o outro não viver também…

Esse é o inverno que temos pela frente. Gestar o homem com compaixão e amor …

 

 

Waulena d’Oliveira