Caminhos do Outono

janeiro 15, 2018

Caminhos de Outono

 

 

Navego no vento do tempo,

Passeio ao longo da arrebentação

Nas asas de um vento quente

Chamado memória …

Coração pulsando com as marés

Um sorriso vermelho carmim

Olhar perdido em doces sonhos

Corpo pronto, à espera de amar

Foi assim um certo verão

De tardes ardentes de paixão

De descobertas e surpresas

Tornou-se eterno outono

Dourada  cor do amor perfeito

Suspiro presente em toda estação

 

 

                                                                                                                             Waulena  d’Oliveira

 

 

 

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PAZ NA TERRA

dezembro 18, 2017

Crônica 31.jpeg

 

Enfim … dezembro …

Um longo ano nos trouxe até aqui. Foi difícil, pesado, desgastante. Mas, como sempre, também tivemos sorrisos, vitórias, beleza.

Fico a observar o tempo. Ao nascer de dezembro, aos poucos, bem devagar, muda a atmosfera. Aos poucos surge uma certa ansiedade, porém do tipo colorido – como os papéis de presente e as bolas da árvore de natal. Aos poucos  surge  uma certa esperança, como um flash – um novo tempo vai nascer e tudo será melhor.

Verdade que sucumbimos aos ditames do consumo : fazemos listas, há compras a fazer, festas a planejar. Ninguém gosta de ficar fora das comemorações, ora ! Mesmo num ano difícil como este que se vai.

Todavia, um dia chega-se em casa e brotaram luzes pela vizinhança. Noutro vislumbramos o reflexo das árvores e seus enfeites. As ruas ficam mais agitadas. As lojas demoram-se a fechar.  O mês avança trazendo uma nova face para a vida …

Gosto de ficar no escuro, a observar as luzes da nossa árvore a piscar sonhos, brindes. Renasço… Deixo-me encantar pela magia das renas , da neve, daquelas velhas canções. Cada enfeite uma história, um momento. Natais antigos, família reunida  –  aqueles que não temos mais …

Suspiro …

Aqui dentro, junto à minha árvore, tudo o que não é bom perde o sentido.

A feiura das guerras, da fome, da falta de amor, do abandono … tudo torna-se incompreensível !

Por que não conseguimos manter os sorrisos dos presentes recebidos, ao surgir de cada novo dia ?

Por que  não conseguimos ser generosos com qualquer um que esteja próximo de nós, como quando desejamos  “boas festas” ?

Por que não conseguimos guardar em nós os desejos de paz, as esperanças de fazermos um mundo melhor ?

Por que nunca conseguimos cumprir as promessas da virada dos anos, de mudarmos a nós mesmo naquilo que falhamos antes ?…

Sim. 2017 foi difícil, pesado, desgastante.

Mas não são assim todos os anos quando estamos distantes da Luz ?!…

 

Sem considerar o que pregam as religiões, não seria o sentido do Natal o de deixarmos nascer em nós as sementes de amor incondicional, plantadas em nós na Criação – o amor que acolhe, vivifica, consola, cura ? Permitirmos que nasça em nós, finalmente, aquela chama divina que não queima mas faz ascender ?…  

Suspiro …  e rezo.

Que este Natal seja o renascer dos sonhos, das alegrias, da compreensão, da união.

Que as ceias alimentem os anseios do Bem. Que os brindes ecoem por todos os dias vindouros, em comemoração à Vida justa. Que os convidados sejam sempre os amigos do coração, a família, e também os que precisarem de uma mão estendida. Que as luzes coloridas permaneçam acesas a clarear todos os passos, para que as sombras nunca se aproximem.

Que a PAZ renasça no coração dos Homens, e o Amor seja o único caminho.

 

FELIZ NATAL   E  UM   PRÓSPERO ANO NOVO  !!!

 

 

Waulena Oliveira

Memórias

dezembro 13, 2017

Crônica 30

 

Certos sons ou cheiros trazem em si a memória viva do que um dia já se viveu …

Quando nos chegam imediatamente somos lançados no tempo, viajamos de volta apenas para ter as mesmas sensações de antes.

De que são feitas as memórias ? Qual a sua essência ?

Penso que muitas são feitas de risos e dias de sol ; lembranças viçosas, com sons de alegria  e cheiro de flor. São as que mostramos ao mundo, em fotos que exibimos sobre os móveis. Mas, e aquel’outras, as feitas de neblina ? As sombrias, silenciosas, com cheiro de chuva e que guardamos apenas no fundo do peito ?…

Muitas ficarão para sempre, postas em livros de contar histórias. Mas há as que serão esquecidas depois, quando nos formos. Eram pedaços de nós, quase matéria …

Busco em mim o que tenho de memórias, de risos e névoas. Encontro tantas a povoar meus porões …  Cumprimento as que passam diante de mim, sabendo serem velhas conhecidas…

Algumas tão antigas, esmaecidas … Um balão de gás preso a uma pedrinha, ‘delicados’ da Kibon . E os oitis caídos da vila, festa da criançada … O bondinho do Pão de Açúcar, de madeira e o cordão de luzes a enfeitar o pescoço da enseada ao anoitecer …

Mas encontrei outras mais novas, ressabiadas por serem ainda calouras. Vagalumes encantando uma noite … Um sorriso iluminando outra … A névoa encobrindo a estrada …

E assim me perco por horas, a redescobrir memórias, passeando por todos os dias que já vivi, e noites, e lugares, e pessoas.  Sem , contudo, conseguir perceber a matéria de que são feitas …

Somente instantes antes de se renderem  meus olhos à Morpheus repentina certeza me toma, absoluta : memórias … momentos de eternidade …

 

Waulena Oliveira

 

E Agora ?…

novembro 21, 2017

Crônica 29

 

Busco na noite o silêncio, o cessar do falatório, porque estamos exaustos e sem voz. Se estenderá a ressaca ao amanhã …

E quando chegar o amanhã,  o  que será dos sonhos e das esperanças ?  Mas a noite não trará essas respostas. Só o tempo …

Há alguns pouquíssimos anos vi milhões nas ruas, percebi uma efervescência incomum nas pessoas. Percebi-me a arrepiar de orgulho…    Senti um cheiro de ideais no ar – na melhor acepção da palavra, aquilo a que se aspira. Senti uma ânsia de mudança – mudar o que é indigno, o que não tem ética.

Naqueles dias, daquela janela, lembrei-me de outros tempos, em que vozes se levantaram e atraíram outras vozes ; vozes que ficaram à frente de outras e tornaram-se multidões despertas da escuridão da ignorância e da inconsciência.

A podridão exposta nos levou à indignação e à reflexão. À ânsia por uma nova era, de Justiça, de Lei, de Dignidade.  No entanto, passamos muitas horas nas redes sociais expondo nossas ideias e expectativas apenas para descobrirmos perplexos que nada mudou, que ninguém realmente se importa a ponto de fazer a diferença …

Não é uma questão de embate entre esquerda e direita, norte e sul, pobre e rico, ou qualquer outra hipocrisia que venham dizer agora.

É e sempre vai ser o embate entre a Luz e a Sombra dentro do próprio Homem …
A luta entre o egoísmo e a ganância que o mantém voltado a prover seus próprios instintos e desejos, e o altruísmo que o levaria a agir em prol do Bem maior, do melhor para todos.

Busco na noite o silêncio, o cessar do falatório, porque estamos exaustos e sem voz. Se estenderá a ressaca ao amanhã …

Sinto que uma nação se perdeu … 

E se mantém dividida, espoliada por si mesma.

O tempo nos trará respostas.  Que sejamos fortes para enfrentá- las …

 

 

Waulena Oliveira

 

 

A Menina e o Urso

novembro 13, 2017

Crônica 28

 

Ela estava às voltas com seus afazeres ; cuidava da sua casa ; e pensava consigo mesma sobre o natal. Seria, talvez, como os outros de que se lembrava.

Com  o  tempo  parece  que  haviam  desbotado  um pouco as cores,  que as luzes estavam mais fracas  –  “ou será que fui eu que esmaeci ?…”

Então lembrou de uma noite na casa dos tios ; estava com 5 anos mas era bem alta para a idade. Gostava daquelas datas na casa dos tios, com seus protocolos, louças especiais e taças de cristal coloridas. As luzes indiretas na sala, as canções repetidas ao piano e, claro, a hora dos presentes … Mas naquela noite seu primo havia preparado uma grande surpresa !  Uma casa de brinquedo, quase do  seu  tamanho …  Pequenas luzes,  mobília,  um elegante  carro  na  garagem …  De  encher  os olhos !!! Ela não podia imaginar como iria divertir-se com aquela casa.

Mas naquele Natal  chegou também um outro brinquedo : um enoooorme urso , maior do que ela, com sua gravata borboleta vermelha !!  Ahhhh foi paixão à primeira vista ! Deram-lhe um nome e ela passou a ficar sempre junto com seu urso. Ele era grande o bastante para que ela pudesse sentar em seu colo e ficar longas horas ali, aconchegada.  Uma vez fez sua mãe vestí-lo com um shorte e uma camisa e foi com ele à casa dos tios  –  que trabalho ela dava ! rsrsrs

Os anos se foram, ela cresceu, o urso foi doado. A infância tornou-se apenas mais uma lembrança.

E naquele dia ela se perguntou por que lembrara do urso … E sorriu lembrando daqueles dias.

Estava assim, absorta nos pensamentos que a tiravam das monótonas tarefas. Nem ouviu que ele chegara. Assustou-se por un átimo com o abraço carinhoso  de seu marido, um homem alto e forte; mas apenas por um átimo, porque aquele era o abraço que aquietava todo o seu mundo, para onde gostava de fugir e se aconchegar como num ninho – “o abraço do seu Urso” , costumava dizer …

De repente sorriu.

E quando ele lhe perguntou o por que do sorriso, ela – lembrando do amigo cujo nome começava com a mesma letra – reconheceu, por fim, aquela sensação guardada em seu coração… Ela sorriu novamente e respondeu apenas  “foi uma lembrança …”

 

 

Waulena Oliveira

 

 

O Sonho

outubro 23, 2017

Crônica 27

 

 

Havia um sonho guardado naquele coração. Às vezes ela se aquietava num canto e ficava a conversar com ele. Ela só queria testar se o sonho ainda vivia dentro de si.

Então ela o acalentava ; contava-lhe histórias sobre o que estava vivendo e sobre o que via de sua janela. Ouvia as respostas do sonho com atenção para saber sobre seu ânimo  –  pois nem sempre era primavera lá por dentro … Muitas vezes seu peito era feito de brumas e o sonho chorava … Quantas vezes não quedara-se no escuro da noite e o acompanhava, deixando-se ser inverno ?…

Ela e seu sonho eram assim. Um dia sorriso, no outro …

Mas ela explicava a ele que a vida era assim, cheia de voltas, de atalhos – um caminho desconhecido que precisava, no entanto, ser trilhado, mesmo no inverno …  E o sonho suspirava e acabava por dormir quando secavam suas lágrimas. E ela apertava o peito para acalentá-lo.

Ela sabia que o sonho gostava de cores e perfumes, por isto fazia poemas para alegrá-lo. Deixava-o sentir o cheiro da chuva, respirando mais fundo. Passava horas ouvindo músicas doces que faziam o sonho sonhar  –  pois ele gostava de sonhar que tornava-se realidade …

Eles eram inseparáveis ! E mesmo quando a Vida causava-lhe alguma dor ou o mundo tentava fazê-la acreditar de que nada valia o sonho, ela corria a agarrá-lo , aquele pequeno sonho que enchia seu coração …

Eis que um dia ela tentou ouvir os sonho. Queria conversar com ele. Mas só encontrou o silêncio de um vazio profundo … E ela lamentou pelo sonho que nunca chegara a viver …

E agora , o que faria ? Não sabia …

Então, num belo dia, ouviu a campainha e meio indecisa abriu a porta.  A princípio não o reconheceu. Olhou bem fundo naqueles olhos e viu a primavera dentro dele.

Seu sonho tornara-se o amor …

 

 

 

Waulena Oliveira

 

CHEIRO

setembro 10, 2017

Beijo 2

 

 

O cheiro do meu gozo

Dorme em tua boca

E desperta no beijo

Que estala e devora

 

A seiva jorra em rios

De corpo e arrepios

 

O sabor dos meus  ‘ais’

Delira em teu ouvido

E ecoa no sussurro

Que estremece e cala

 

 

Waulena Oliveira

 

CHARADA

setembro 7, 2017

Charada.jpg

 

 

Palavras soltas na noite escura.

Algumas acotovelam-se à porta de mim,

outras tantas fogem pela janela do tempo –

têm pressa de ser passado …

Reflito nos ecos que provocam – umas e outras.

Que mensagens deixam-me de verdade ?

Que intrincada charada tentam desvendar ?

Qual o significado desse dilema vital : o que querem dizer-me ?!

Talvez eu deva apenas fechar os olhos

e quedar-me em sonhos.

Talvez eu deva apenas sossegar a ânsia de ver-te,

de tocar tua pele macia,

de afogar todas as palavras na seiva do teu amor …

 

 

Waulena Oliveira 

 

Mundo

setembro 4, 2017

Crônica 24

 

Abro o dicionário e vejo o vocábulo “mundo” : conjunto de tudo que existe.

Parece de simples compreensão. No entanto …

O mundo é um caleidoscópio… Povos, culturas, locais tão distintos e tão semelhantes …

Muitas cores e cor nenhuma.

Penso : seria o mundo o que nos contém ?

Ou aquilo o que somos, tudo que nos habita ? Então o mundo seria uma Babel…

Todos somos tão parecidos, cheios de vícios, de ódios, de dramas. Cheios de amores e cores.

Mas e se o mundo for a vida ? Então seria uma perplexidade…

Porque tantos sofrem enquanto outros sorriem. Porque preferimos a guerra, a destruição. Somos possuídos por desejos ao mesmo tempo que somos despidos de sentimentos… Uns têm tanto e tantos têm tão pouco.

Ahh … talvez o mundo seja mesmo uma charada…

“Decifra-me ou te devoro”  é o desafio que ele nos faz a cada instante, desafiando-nos a fazer escolhas, a encontrar caminhos.

É. Talvez só os deuses saibam a resposta –  ou os filósofos . . .

 

Waulena Oliveira 

 

 

O que foi feito de nós ?

agosto 28, 2017

Crônica 23

 

No silêncio de um final de dia recosto-me e fico a imaginar tudo o que trará o novo dia …

Ainda congestionam os meus pensamentos as notícias vistas na internet, nos noticiários, nas redes sociais …  Um mundo distorcido, enegrecido por sentimentos de ódio, de medo …

As conversas ouvidas não variam o assunto : a situação econômica, política, a violência, a insegurança …

Me fazem pensar “o que foi feito da vida” ?… O que foi feito de nós ?…

As maiores atrocidades merecem apenas  “curtidas”  – no máximo alguns comentários indignados, desde que mantenham-se à salvo no calor de casa…

Somos vilipendiados diariamente em nossos anseios, em nossos direitos; fazem pouco da nossa inteligência; roubam-nos na calada de encontros noturnos; mas mesmo assim permanecemos quietos …  O poder é nosso, o direito é nosso, porém nos calamos e permitimos …

Algumas vozes levantam-se, como sempre. Mas onde o eco ??…

Paira uma sensação de dormência …

Tornamo-nos apenas expectadores de um teatro atroz, onde vidas são perdidas por nada, onde as mensagens distorcidas tornam-se “verdades inquestionáveis” .

Paira uma sensação de ausência …

Tornamo-nos apenas cúmplices de um tempo pobre de ideais, onde inexiste a vontade do ‘agir bem’ , onde inexiste o valor de ‘ser bom’ …

Será chegado o tempo da separação do joio do trigo ?  E quem poderá ser salvo ?  O que pode nos tornar trigo ?  Por certo que não será a omissão, a indiferença.

Então, o que será feito de nós ?…

 

 

Waulena Oliveira