Noites e Sombras

julho 19, 2017

Noites e sombras

 

 

Algumas canções soam como trilhas sonoras

Fazem surgir imagens diante de nós

Momentos, sorrisos, sons, sensações

Memória …

Às vezes tu me fazes ouvir tais canções

Um olhar, um vento a soprar, nós dois a brincar …

Desde quando te tornas-te parte de mim ?…

Será que sempre estive a esperar

Pelo que estava guardado em ti ?…

Muitas vezes sou feito noites e sombras

Mas tu o brilho que antecede o amanhecer

Eu poderia seguir muito bem pela vida sem ti

Mas seria sempre noite – nunca o dia …

 

 

Waulena Oliveira

 

Velhos Mistérios

julho 18, 2017

Crônica 18

 

Ela era uma jovem como tantas outras. Costumava passar por aquele parque a caminho das aulas, com veredas bem cuidadas, muitas árvores e flores, e até mesmo um lago alimentado por um riacho que não sabia de onde vinha.

Ela nunca tinha tempo de parar ali, mas não raro alguma coisa atraía os seus pensamentos para o bosque. Às vezes pensava ouvir sons, rumores, mas preferia achar que era apenas o sussurro do vento nas folhas.

No entanto, naqueles dias parecia haver mais movimento por lá; talvez a primavera que chegava estivesse despertando pássaros e flores – fazendo despertar de novo a efervescência da vida…

A jovem estava inquieta aquela tarde. Sem qualquer motivo vira no calendário que era dia de lua cheia.  “Por que não parara de pensar nisso ?”  E por que aquele parque não saía da sua lembrança ? Aquela sensação tornava-se imperativa: precisava sair, tomar ar, ver o mundo. Reuniu alguns objetos sem muito pensar e se foi rumo ao parque.

Anoitecia quando ela entrou no bosque, dando vida às sombras com sua lanterna. O silêncio parecia ter feito o tempo parar. A noite prometia surpresas…

Quando ouviu o canto do riacho nos seixos escolheu onde sentar-se para que o céu não ficasse oculto pelas árvores. Não pensava no que fazia, apenas fazia ; como se seu corpo inteiro houvesse feito, incontáveis vezes, aquele ritual …

Procurou gravetos e os juntou com arte. À volta fez um círculo com as pétalas brancas e amarelas que havia encontrado e espetou na terra várias varetas de sândalo, esperando que o perfume enchesse o ar. Encheu o cálice que trouxera com a água cristalina do riacho. Acendeu o fogo, deixando que ele aquecesse suas mãos – dialogando com as chamas como nunca pensara poder fazer …  Então pôs-se a cantarolar sons ditados por sua imaginação e a dançar pelo círculo, tornando-se uma com a noite e os elementos…

Naquele momento a jovem transportou-se até a manhã dos tempos quando os elementos comungavam da vida junto com os homens… Tudo em volta ganhou cores e movimento. Ela podia perceber a presença de seres encantados, que respondiam ao seu chamado. O incenso tremulava formando imagens no ar; o riacho murmurava em coro; as chamas crepitavam e estalavam na noite; toda a terra vibrava em festa…

Ali, naquela noite, a jovem não era mais como qualquer outra. Ela aquietou sua dança e sua respiração . Erguendo o cálice, ela entoou um velho chamado e enquanto seu coração parecia pulsar num ritmo próprio, viu a Deusa chegar – surgia por entre as árvores, envolvendo todo o bosque com seu manto prateado, emoldurando um quadro que a jovem jamais esqueceria…

A jovem deixou-se banhar por aquele luar, que percorria seu corpo inundando-a com uma energia poderosa. E ela sentiu-se una com a Terra e todos os seres vivos. A jovem e a Lua eram uma só…

O tempo consumiu as chamas que se tornaram apenas brasas; as varetas e as pétalas confundiam-se agora com a terra. A jovem sorveu aquela água prateada, sentindo sua vida renovada. Era hora de ir.

Naquela noite a jovem tomou o caminho de casa levando consigo um brilho no olhar que antes não existia – o brilho dos Velhos Mistérios…

 

 

Waulena Oliveira

 

 

Certezas

julho 10, 2017

Crônica 17.jpg

 

 

Naquela manhã parecia que seus dogmas estavam em cheque … Pensava na outra noite, quando encontrara com amigos da faculdade – depois de décadas !  Aquelas figuras antes tão familiares haviam mudado ; cheias de histórias animadas, aventuras, sucessos … E ela pensava em sua vida tão simples, casa, marido  –  inquietava-a aquela sensação de que perdera algo …

Assim passou parte do dia, alheia às tarefas que executava sem esforço, ainda que absorta em si mesma.

Mais ao fim da tarde, com tudo feito e a casa arrumada, sentou-se na varanda com sua xícara de chá, esperando a despedida do sol, enquanto as sabiás cantavam e chegavam os vagalumes. Naquela hora de lusco-fusco, enquanto a fumaça quente evolava de sua porcelana, percebeu pela primeira vez naquele dia o que estava diante de si : o seu mundo. A paisagem, os sons, o marido mais ao longe, a brincar com os cães  –  tudo o que lhe dava paz e alegria…

A juventude acalentara sonhos de grandeza, mas a maturidade trouxera a compreensão de que, como dizia o poeta, “poucas coisas valem à pena, o importante é ter prazer . . . ”  

Pra que rodar o mundo, se o meu mundo está dentro dos olhos de quem amamos ?

Pra que badalações e fama e cargos, se o coração é feliz com a serenidade de uma manhã de sol e o café na varanda ? Ver o ninho de beija-flor construído sem temores num galho ao alcance de sua mão, ou os bambus crescendo e balançando ao vento – cantando como ondas no mar, ver surgirem as primeiras estrelas no céu, a lua nascendo por trás das árvores. Saber que não se está só . . .

Por que pensar no que não fez, se o que fez foi deixar seu coração feliz ?! . . .

O seu sucesso estivera ali todo o tempo : fazer de cada dia um suspiro de amor , um sonho a mais.

Então ela sorveu o último gole do chá e finalmente voltou a sorrir …

 

 

Waulena Oliveira 

 

 

Néctar

julho 9, 2017

Néctar

 

Permeia em mim a doçura do amor

A sensação de ser completa – não em ti

Mas em nós …

Sou um verso livre cativado pela tua rima

És o vento que brinca em minhas folhas

Somos risos e sonhos. Somos vida !

Entrego-te minha essência, meu néctar

Alimento-te o corpo e a alma

Torno-me cachoeiras , infinito desejo …

Entregas-me teus anseios, teu destino

Fazes de mim tua eterna menina, flor

Tornas-te meu bardo, trovador …

E se floresço no teu amor

És beija-flor no meu …

 

 

Waulena Oliveira

A criança em mim …

julho 3, 2017

Crônica 16

 

Às  vezes soergo os olhos e aprecio o mundo – mas é tão selvagem lá fora !…

Tudo tão cinza, apressado …  Só vejo ruas repletas de gente correndo –  mas ninguém é conhecido !  Ninguém se fala ou se toca . . . Algumas param nas bancas mas não procuram gibis, só olham vazias as manchetes malvadas …

Não sei se devo me arriscar a sair. Fico à espreita das manhãs claras, mas não ouço as brincadeiras de roda, de pular corda. Pra onde foi todo mundo ?…

Grito :  “Ei  !!  Estou aqui  !!  Ninguém quer brincar ??”    Mas acho que ninguém me vê . . .

Uma vez ouvi alguém dizer que eu estava crescendo…

Será que fiquei igual a toda essa gente ?!  Ah . . . isso não tem a menor graça !!!

Não quero relógio ! Ainda quero brincar de pique, pular corda, jogar bola de gude, colecionar figurinhas, andar descalça na terra, sair na chuva pisando nas poças . . . 

Não quero saber desse mundo sem cor, sem inocência, sem brincadeiras !

Acho que vou me esconder de novo…

Quem sabe tempo continua ocupado e esquece de me tornar grande …

 

 

 

Waulena Oliveira

Chove …

julho 2, 2017

Chove

 

Às vezes o mundo amanhece cansado

de sonhos amassados …

A vida parece cinzenta

e derramam-se as nuvens

O vento canta canção mais aguda

dos  ‘ais’  e  ‘por quês’

As ruas vazias caminham frias

Mas no aconchego do ninho

O amor é sempre promessa de sol …

 

 

 

Waulena Oliveira

EU E VOCÊ

junho 12, 2017

Eu e Você.jpg

 

 

Deixa-me ir contigo,
Pela noite que se avizinha.
Deixa tuas pegadas junto das minhas.
Deixa-me ser teu guia,
Pelas veredas da vida.
Deixa tua presença em minh’alma.
Deixa-me ser teu abrigo e cais.
Deixa em mim a certeza do amor …

 

 

Waulena Oliveira 

 

Réquiem para um Amigo

junho 12, 2017

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Os anos passam rápido, enquanto a vida caminha lenta …  Colecionamos momentos apressados. E alguns que gostamos de ter sempre conosco.

Para ela a vida era um seguir sem fim, bordado de lembranças. Como aquele pinheiro que uma vez enfeitara um Natal e depois fora plantado no jardim. Num canto, na direção de suas janelas, de onde pudesse vê-lo. Assim seria sempre seu pinheiro …

Ela gostava de fita-lo, ele era sempre seu primeiro “bom-dia” ; ela lhe contava os segredos que o espelho não podia ouvir … Ela o via lançar-se mais ao céu através das décadas … Era um companheiro de história. Uma boa lembrança. Uma parte de sua vida …

Antes pequeno, tímido junto ao muro, ele foi tomando porte.  Sol e chuva faziam-no feliz. De quando em quando o tempo presenteava-lhe com novas agulhas  –  e suas rodas cresciam, se abriam, mostrando o belo cone que seria …

O pinheiro assistia o tempo passar enquanto as crianças da vizinhança cresciam. De quando em vez alguém vinha e enfeitava-o com luzes coloridas. Ele não sabia o por que disso  – apenas se mostrava mais imponente com seus colares a piscar …

Mas havia aqueles indiferentes, para quem o pinheiro era apenas outra árvore, sem maior importância. Esses queriam tirá-lo dali, fazer mudanças, obras, muretas, sabe-se lá o que !   Insensíveis !  Uma vez tentaram cortá-lo.. Ao sabe-lo ela revoltou-se, gritou, questionou, alardeou a infâmia, protestou veementemente, até que deixassem em paz seu pinheiro …

Ele nem soube …  e continuou a alegrar a visão dela, com suas agulhas balançando na brisa da manhã, recebendo a visita de passarinhos em seus galhos, presenteando a todos com seus frutos  –  a inocência de um reino abençoado por Deus …

O pinheiro crescia forte !  Agora ela já o via sem precisar chegar à janela ! Mesmo sentada em seu quarto podia vê-lo, verdinho, feliz … Ela sabia que ele tinha vida própria, mas alegrava-a saber que ela o plantara ali, um dia. Não fora ele apenas um enfeite de natal que se joga fora, mas uma vida acalentada, querida, cuidada.

Porém um dia, ao acordar, olhou pela janela e não viu mais o pinheiro !… Estarrecida viu apenas um toco de madeira onde antes ele crescera … Uma profunda dor atravessou-lhe o coração e chorou ! Na calada da noite, haviam cortado a pobre árvore – sem que ela tivesse a chance de protestar e tentar salvá-lo …

Quanta maldade !!  Quanta falta de humanidade !! Ceifar uma vida sem qualquer razão !!

E ela chorou amargamente a perda daquele amigo, lembrando como ele ficara garboso, o tempo que haviam atravessado juntos, as agulhinhas novas , verdinhas, que outro dia mesmo tinha percebido…

Nada mais restava dele. Fora removido e tudo limpo. Restara apenas as suas memórias.

Mas ao passar perto de onde fora a morada do pinheiro, num canto, meio escondidas, como a esperá-la,  viu umas agulhinhas de seu amado pinheiro. Ela as recolheu e guardou, com uma última lágrima.

E quis com a força de seu coração que ele tivesse apenas cumprido seu tempo entre nós e tivesse partido sem sentir a dor  que o desamor dos homens é capaz de causar.

Ele agora permaneceria vivo em seu coração …

 

 

Waulena Oliveira 

 

 

The Versatile Blogger Award

junho 7, 2017

Versatile (1)

Num momento de muito tumulto e obrigações fui surpreendida  pelas indicações de  Alda M S Santos e Elias Akhenaton ao “The Versatile Blogger Award”  …  Apesar dessa satisfação pessoal, foi grande a surpresa porque apenas  namoro as palavras e tento deixar um pouco de mim no vento para, quem sabe, alcançar outros corações e deixar uma marca da minha presença nesse mundo.

Então, devo atender às regras e nomear outros blogs para esse concurso e escrever 7 coisas sobre mim ao final deste post. Isso para que os indicados contribuem com a premiação e reconhecem os blogues que estão se destacando pelo conteúdo interessante na blogsfera.

Os indicados são :

htpps://essenciadapoesia.wordpress.com/

htpps://beija-florcigano.wordpress.com/

htpps://vidaintensavida.wordpress.com/

htpps://poemaempretoebranco.wordpress.com/

htpps://marcalivro.wordpress.com/

htpps://blogdaitanamara.wordpress.com/

htpps://cafeamorepoesia.wordpress.com/

htpps://anatomiadapalavra.wordpress.com/

htpps://mochileirodopensamento.wordpress.com/

htpps:7seasonsblog.wordpress.com/

htpps://poetadagarrafa.wordpress.com/

 

Agora o mais difícil, falar sobre mim  (rsrs) :

1 – Sou uma advogada que escreve, ou uma escritora que advoga  –  muitas vezes é difícil saber qual delas sou …

2 – Vivo pela Lei, na sua acepção mais pura, ou seja,  no certo e errado sem dois pesos e duas medidas  –  almejo viver com  Justiça para todos …

3 – No fundo insisto em acreditar que o Homem tem salvação … que ainda pode crescer e ser  ‘do bem’  …

4 – Caminho por uma grande Cidade, com suas sombras e medos, ansiando pela paz da simplicidade da natureza …

5 – Como uma boa taurina, amo o belo, o belo que podemos encontrar no perfume do café pela manhã, na brisa fresca no fim da tarde, no luminoso sorriso de um amigo, num abraço de querer-bem …

6 – Tenho certeza de que o Amor é a maior força deste Universo, criativa, regeneradora, salvadora …

7 – Escrever é o mesmo que respirar  –  está na essência …  E o que eu quero ? Ser feliz …

 

Mais uma vez registro aqui minha gratidão pelo carinho dos amigos que me indicaram.

Desejo sucesso e boa sorte a todos. Afinal , todos nasceram para brilhar …

 

 

                                                                                                                     Waulena Oliveira 

 

O Exilado

maio 15, 2017

Crônica 08

 

Ele sempre vivera ali. Crescera por aquela ruas, por elas correra e jogara bola. Tocara campainhas e saíra correndo, sempre com um ou dois amigos inseparáveis e mais uma multidão de primos e outras crianças vizinhas  – como gostavam de implicar com algumas senhoras !…

Eram crianças normais de seu tempo, crescendo.

Ele sempre vivera ali. Aprendera a gostar das garotas, aprendera a dirigir. Ficara até altas horas da noite em intermináveis conversas, sempre com um ou dois amigos inseparáveis e mais um sem número de primos e jovens vizinhos – como gostavam de encarar a noite !…

Eram jovens normais, crescendo.

Ele sempre vivera alí. A casa dos pais era extensão de si próprio. A casa dos avós a parada natural. E a casa dos amigos estavam sempre de portas abertas. Afinal, cresciam todos juntos !…

Foram muitas as aventuras, as descobertas, as histórias – do tipo que se guarda pra contar aos netos …

Mas o tempo os levou pela vida, sem que ele sequer percebesse. Alguns se mudaram, outros casaram e também mudaram. As meninas tornaram-se mães ou não. Os rapazes pais de família ou não.  O tempo os tornou estranhos, sem que ele sequer percebesse …

Algumas mulheres passaram por sua estrada. Mas ele pensava ser livre. Até que uma chegou devagar e foi ficando.  Não o amou como ele pensou, mas ficou.   De repente 30, 40, 50  –  e ele nem percebeu que o bairro tornara-se apenas o lugar onde morava e que de tantos nomes ficara apenas ele e ela …

Mas ao que parece, não estavam prescritas felicidades eternas para os dois. Ele ficou doente, não mais trabalhou. Seus pais se foram e a mulher o deixou  –  como naquelas histórias em que alguém sai para comprar cigarros e não volta mais …  Na casa, além dele, ficaram apenas as coisas dela – armários cheios de objetos, para sua perplexidade : “por que ?”

Perdido, sozinho, fechado em seu mundo particular. Quase não saía. Não aprendera a enfrentar o mundo, não seguira pra longe como os demais.  Nada mais sabia fazer. E assim foi até que o dinheiro acabou. O que poderia fazer ? Como sobreviver ?  De repente o bairro lhe pareceu ermo, sem vida, sem histórias – grande demais …

Mas ainda restara um amigo que o salvou da escuridão e o tirou dali. Deu-lhe abrigo, companhia. E ele ficou grato. E tentou retribuir. Havia problemas naquela casa – mas em qual não havia ?… Era grato pelo teto e pela comida, pela companhia e pela internet …

Ele bem tentou conhecer melhor os novos lugares, as praças, as ruas. O comércio era estranho sem aquelas velhas faces conhecidas. Começou a mencioná-los como seus conterrâneos !…  Aquelas ruas, cheias de recordações, pareciam mais bonitas agora ; tudo em seu antigo bairro parecia ser melhor, mais divertido, mais saboroso. E tudo o que ele desejava era voltar pra casa …

Ele só não percebia que a casa que ele queria não existia mais, porque não era só um lugar, um bairro. Ele não percebia que a casa com a qual ele sonhava  existia somente no seu peito, em suas lembranças. E não importava onde estivesse realmente, pois aqueles rostos, nomes, momentos estariam com ele pra sempre …

 

 

 

Waulena Oliveira