Fuga

novembro 20, 2018

 

Crônica 61 - Fuga

 

 

Dias de calma.

Em meio à fúria voraz de um calor alucinado, alguns dias de folga… Vontade de mar. Sonho de maresia. Gelado ao pôr do sol …

Para quem vive nas cidades de vidro e concreto, a expectativa desses recessos é hipnótica! Espera-se com ansiedade mais aguçada – não é um simples fim de semana, não ! São três , cinco, dias !!

O problema é que todo mundo tem a mesma ansiedade ! rsrsrs Todo mundo sai cedo para aproveitar mais  –  e todo mundo fica reunido num arrastado engarrafamento …  Aff ! Haja paciência (essa mesma que já andava esgarçada nos últimos tempos…). O jeito é esperar e meditar. Um biscoito aqui, uma água ali e o tempo vai …  Enfim, uma hora se chega. Na torcida de que não tenhamos esquecido nada.

Enquanto aquele desejado mar é apenas um mar automotivo e o sol apenas uma bola de fogo calcinante a cozinhar metais, fico a pensar por que lançamos todas as nossas expectativas nesses recessos.

Tanta ansiedade poderia ser diluída em pequenos passeios, o frescor de um jardim botânico, uma volta na beira da praia para um sorvete, um cinema e um chope. Ahhh um papo animado com amigos ! Remédios infalíveis para o stress do caos nosso de cada dia.

Acho que acabamos ficando viciados nessa correria e nesse “não ter tempo” . Não enxergamos que isso é apenas uma criação e não uma verdade. Nos permitimos oxidar, nos emparedar nos supostos “deveres” …

Olhando em volta, vejo apenas um monte de gente presa em suas gaiolas à espera de chegar …

Para quê ?!

Encontro um retorno, dou meia volta e corro para casa.

E na calmaria da cidade vazia, caminho lentamente pela sombra, roupinha fresca, chinelo nos pés, uma geladinha na mão.

Vontade de mar. Sonho de maresia. Gelado ao pôr do sol …

 

 

Waulena d’Oliveira

 

 

 

Anúncios

O Maior querer …

novembro 13, 2018

Crônica 60

 

No escuro da noite, eles ficavam conversando. Por horas.

Quando se reencontraram descobriram o quanto se pertenciam. A menina e o beijaflor …

Era difícil dormir, porque havia muito tempo para recuperarem. Fora tanto o que haviam perdido !… Agora tinham ânsia, pressa, urgência…

Estavam sempre juntos. As pessoas notavam o casal e comentavam. Não eram mais crianças, mas pareciam dois adolescentes. Andavam de mãos dadas. Trocavam beijos. Olhavam um nos olhos do outro e nada mais no mundo existia…

Nada era fácil nessa época. Mas achavam que juntos tudo podiam – e seguiam ! Passo a passo, começaram a criar uma vida nova para os dois.

Eram testados a cada dia. Um avanço, dois retrocessos. O cansaço às vezes consumia seus humores . Mas aquele abraço no escuro da noite era o melhor dos antídotos…

A menina pensava quando tudo iria se ajeitar. E o beijaflor pensava se ela aguentaria esperar …

E assim se passaram os meses.

Até que um dia, no escuro da noite, eles se deram conta de que o carinho havia esfriado um pouco, corroído pelo stresse da vida dura. E ele suspirou fundo… E deixou escapar seu temor … “A minha menina está indo embora…”

Quão profunda dor sentiu ela, no escuro daquela noite !… 

Sabia da doçura do seu beijaflor ; sabia que era só o cansaço, a rudeza da vida. Mas nada poderia fazê-la tão feliz quanto seu abraço …

E escondendo a lágrima que escorreu de seus olhos, disfarçou o embargo na voz e sussurou-lhe  “Não ! Sua menina estará pra sempre contigo !” …

Waulena d’Oliveira

 

Crescer

novembro 6, 2018

Crônica 59 - Crescer

 

A medida que crescemos adquirimos sonhos e desejos. Aos poucos esquecemos a criança que fomos, esquecemos o colorido que víamos no mundo e vamos construindo um outro mundo, com uma cara séria, totalmente diferente.  Costumam chamar a isso de tornar-se adulto …

Então, de repente, temos um monte de compromissos, trabalho, contas a pagar, coisas a comprar. Passamos a viver de acordo com o que esperam que sejamos, ou …  que “tenhamos” …

E isso é um pesado fardo para muitos ! Muitos perdem o contato com suas próprias essências ! Deixam de enxergar a si mesmos, porque tornam-se um repositório de obrigações e metas a bater  –  precisam ser bem sucedidos, precisam comprar tal carro, casa em tal lugar, fazer essa ou aquela viagem  “x” vezes no ano, etc etc etc  Ou seja, o indivíduo que cai nessa armadilha torna-se prisioneiro daquilo que ainda não comprou …

Há um sentido nisso tudo ? E o que é feito daquela criança que queria apenas correr atrás de borboletas, ou pisotear as poças d’água, ou tomar banho de chuva ?… Daquela criança que sabia quais eram seus amigos, os parceiros daquelas artes todas ?…

Crescer sempre deve significar perder ?!…

Penso que não. Amadurecer por certo implica em assumir muitas obrigações e encargos. Mas por que não preservar aquela criança, aquela parte de si mesmo que pode sorrir e ser espontânea ?

Por que não podemos nos lembrar do que somos, ao invés de ver apenas o que temos – ou não temos, ainda ?

Reflita. Ainda se lembra o que queria ser quando crescesse ?  Se manteve fiel àqueles sonhos ?

Talvez esteja na hora de tomar uns banhos de chuvas …

Waulena d’Oliveira 

 

Amanheci cheia de mar …

outubro 30, 2018

 

amanheci mar

 

 

Amanheci cheia de mar

com ondas bravias, avassaladora paixão

que me faz naufragar ao ver teu olhar

Amanheci como a maré alta

que invade as areias e as consome –

devoro memórias

Amanheci como a maré baixa

que se recolhe e expõe seu leito –

exponho-me em silêncios e choros

Amanheci como mar profundo

que abraça a escuridão abissal –

escureço de saudade …

 

 

 

Waulena d’Oliveira

 

Ressaca

outubro 30, 2018

Crônica 58

 

 

Depois de tanto desgaste, de tantos esforços, de disputas, de energias acalentadas, agora é hora de relaxar. De respirar fundo e seguir em frente, construir o porvir.

Não foi bom ver tantas ofensas e tantas sandices. Tantas coisas inexplicáveis e tantos atos escusos.

Mas foi maravilhoso ver a alegria de sonhar com um tempo novo. Ver renascer um sentimento de amor a este país como eu nunca vira.

Serenados os ânimos, há muito trabalho a se feito. Há muitas mudanças a  serem  impulsionadas.  O trabalho  não  é  para  uma  pessoa – não existem “salvadores da pátria” !

Não. O trabalho é para todos nós, que queremos realmente uma vida melhor. Precisamos contribuir com nossas atitudes. Não podemos mais admitir aquelas pequenas corrupções do dia a dia – que nada mais são do que uma predisposição a sentir-se melhor do que os outros, a pensar de que os outros podem ser prejudicados se for para o nosso benefício.

Essa consciência do certo e do errado precisa ser ensinada, incentivada, construída, fortalecida. Só assim teremos idoneidade para cobrar !

E não há dúvidas de que não vivemos no Mundo da Fantasia; não está tudo resolvido e para podermos viver como a Cigarra da fábula. Sempre precisaremos estar atentos, vigilantes – fiscalização e cobrança, dentro do Direito e da Lei, significa cidadania.

 

Sim. O Reveillon foi mais cedo este ano…   rsrsrs

Que seja um Novo Tempo e todos os nossos sonhos sejam verdade !  

Waulena d’Oliveira

 

Quem sabe …

outubro 27, 2018

 

QuemSabe...

 

Quando o amor se torna amálgama da vida ?

Será que antes há que se regar com lágrimas ?

Será que antes há que adubar com sonhos ?

 

Quando o amor se torna alimento da vida ?

Será que antes há que se rasgar o peito ?

Será que antes há que perder muito ?

 

Será conto de fadas , lenda, o amor ?

Será encontrado numa esquina repentina ?

Quando conseguiremos saber ?…

 

 

Waulena d’Oliveira

 

 

 

Uma noite …

outubro 25, 2018

UmaNoite

 

 

Há uma noite que não se acaba,

viva que está em meu coração.

Um violino que canta com o vento,

meus olhos só paixão . . .

Há uma noite que não se acaba,

uma canção que não tem fim,

um desejo eterno dentro de mim . . . 

 

 

Waulena d’Oliveira

 

 

Sentimento

outubro 25, 2018

 

sentimentos 3

 

 

Os encontros às vezes são assim

condimento

E trazem sentimentos assim

indecisão

E se anunciam assim

perdição

Mas deixam a vontade assim

paixão …

 

Waulena d’Oliveira

 

Do Amor …

outubro 25, 2018

DoAmor

 

 

Versos que não fiz

Falam de amor

Rimas que não encontrei

Falam de amor

Melodias que ouço

Falam de amor …

 

Não sei do amor, das suas estrofes

Não sei suas cores, seus perfumes

Sei apenas dos teus olhos nos meus

Do teu abraço a agasalhar noites frias

Sei apenas do teu nome em meu coração …

 

Waulena d’Oliveira

 

 

Cegueira ou Visão ?…

outubro 23, 2018

Crônica 57

 

 

Nada mais lhe dava tranquilidade ! Andava stressada.

As notícias eram, como sempre, terríveis, desastrosas … Nem mesmo as redes lhe davam algum relax, depois que a política tornara-se o único assunto.

Eram tantas discussões ! Nunca vira o país assim, polarizado, cheio de raiva e verdades absolutas – cada um com a sua !

Familiares e amigos discutindo e rompendo relações de anos !! Simplesmente porque um não conseguia tolerar a opinião do outro … Um não admitia sequer a possibilidade de o outro poder ter a sua própria opinião !

Mas por quê  ??!!  Por que de repente tornara-se vital estar certo ?!  Por que todos haviam se tornado videntes e cegos ?!

Fatos não importavam mais. Apenas as versões … As suas mentiras eram criminosas, as minhas, porém, são  justificadas. Não importa o lado que se esteja; todos parecem agir de modo igual…

Claro que muitos estavam genuinamente envoltos num desejo sincero, num repúdio ao Mal. Mas tantos outros estavam perdidos e corroídos …

Aqueles eram dias muito obscuros !  E ela estava cansada dos canhões. Bombardeada. Acossada. Não !!!!! Não queria mais isso !!!!

Tudo o que queria era tranquilidade. E flores amarelas perfumadas. E o aroma doce de aniz. E a suavidade da relva verde. E a brancura de uma manhã de sol …

Tudo o que ela queria era paz.

E assim pensando, fechou-se ao burburinho nefasto e aquietou seu coração. Em seu recanto solitário pôs-se a meditar sobre um mundo possível.

E com toda a certeza de sua convicção interior, rezou  para um Deus misericordioso e de infinito Amor  – pedindo a paz para seu país …

 

Waulena d’Oliveira